sexta-feira, 13 de junho de 2014

Infância, abuso e porquês.

Se eu pudesse voltar no tempo, não voltaria para os tempos de escola e nem para a infância. Não voltaria para aquele beijo bom tão esperado ou para minha primeira vez na cama. Não voltaria pra nenhum dia importante. Gostaria de voltar para antes de ter nascido, quem sabe assim eu teria a sorte de que isso pudesse nunca ter acontecido.

Sim, eu me arrependo do dia em que chorei e abri meus olhos pela primeira vez. Não faço a menor ideia de onde eu vim, e também não faço questão de saber, mas daria tudo pra voltar lá e poder ficar o tempo que eu quisesse.

Meu arrependimento teve início na minha infância, quem me dera poder ter morrido nesta época, eu teria sido muito feliz. Pois bem, conta-se a história de que alguns meses após o meu nascimento meus pais se separaram, o que - nos dias de hoje - não é nenhuma novidade. Na altura do campeonato, meu pai já tinha uma outra família, o que não tem muito peso pra mim.

Diz minha mãe que nunca escondeu nada de mim, e que sempre deixou clara a situação entre ela e meu pai, mas sinceramente, eu me lembro de achar que ele era meu tio - e de chamá-lo desta forma - até meus cinco, mais ou menos. Após a separação, minha mãe se envolveu com outro homem e este se tornou meu padrasto (mal sabia que mais tarde se tornaria o meu pior pesadelo).


Entrei para a escola com cinco anos, já sabendo ler e escrever - minha mãe sempre se orgulhou do meu empenho nos estudos. O primário não foi muito fácil, tinha sérios problemas de atenção e depois de um tempo, comecei a maltratar meus colegas de classe. Hoje percebo os motivos de ter começado com esse "ódio gratuito": abuso.

Nessa época, eu era constantemente abusada por um tio-avô, e anos depois descobri que minha família tinha ciência disso, mas deixavam sempre por baixo dos panos para que as pessoas de fora não soubessem.
Acho que todas as famílias tem seus segredos, e todas também tem integrantes que "não prestam", mas cada uma sabe o valor do que deve ser guardado ou não. Enfim...
Esse meu tio-avô abusava realmente de mim, falando coisas obscenas, tocando-me nas partes íntimas, fazendo até com que eu fizesse sexo oral nele. Lembro-me claramente de diversas vezes em que me deixavam sozinha com ele, sem dar a mínima importância para o que acontecia.

Aos oito anos ganhei uma irmã, filha da minha mãe com meu padrasto. A ataquei diversas vezes pelo que achava até então se tratar de ciúmes, essas coisas de irmãos, mas pesquisando um pouco mais a fundo, descobri que na verdade era o mesmo que minha agressão aos meus colegas na escola. Não me orgulho de ter feito isso, mas devo contar. Nos primeiros meses de minha irmã, eu a maltratava todas as vezes em que nos deixavam a sós, mesmo que só por um instante. Batia e enforcava até que ficasse sem ar, e por algumas vezes ela até desmaiava. Talvez ela nunca me perdoe por isso, mas infelizmente eu fiz, está no passado e não posso mudá-lo.

Sempre tive a sexualidade muito avançada pra minha idade, era uma criança bonitinha, loirinha - sempre muito bem penteada, olhos verdes. Os anos foram passando e, como sempre estudei com crianças mais velhas do que eu, os meninos começaram a demonstrar interesse por mim e o assédio não demorou muito. Eu não sei dizer se eu adorava ou odiava aquela situação, mas me lembro de ter dois ou três "seguranças", que eram coleguinhas da turma - os maiores. Eles evitavam que os meninos chegassem perto de mim e eu os pagava com os biscoitos da minha merenda.

Meus pais nos deixavam sozinhas em casa durante a maior parte do tempo, e eu era responsável pelos afazeres domésticos. Certo dia, aquele meu tio-avô veio nos visitar e eu estava sozinha com minha irmã em casa. Num determinado momento percebi que tudo estava muito quieto, e ao entrar no quarto me deparei com ele tirando as roupas da minha irmã e tentando abusar dela (que tinha cerca de dois anos de idade). A peguei rapidamente e sai de casa, assim sem rumo mesmo. Perambulei até que escurecesse, pois só então meus pais já estariam de volta. Não contei do acontecido, e o tempo foi passando.

Aos meus treze anos, minha mãe e meu padrasto se separaram. Depois disso me vi perdida, pois eu achava que ele era meu melhor amigo não só dentro de casa mas também no mundo inteiro. Há anos eu já não era próxima da minha mãe, e conforme eu ficava mais velha, a aceitava menos. Hoje penso que talvez a rejeitasse por achar - inconscientemente - que os abusos eram culpa dela por sempre me deixar sozinha. Ela sempre trabalhou demais e poucas eram as vezes que tínhamos carinho de sua parte, ela sempre estava ocupada demais para dar um abraço ou dizer um "eu te amo, filha".

Após a separação minhas notas caíram e comecei a não ligar mais pra nada. Não conversava com muitas pessoas e sempre evitava a família. Durante meu crescimento fui abusada por outras pessoas que passaram pela minha vida, como conhecidos dos meus pais, vizinhos, etc. Ao rejeitar o contato com a maioria das pessoas, minha família começou a me enxergar como ovelha negra, que tentava chamar a atenção, e isso sempre acabava em piada. Por esses e  outros motivos, comecei pela primeira vez o tratamento com uma psicóloga, que depois de algum tempo descobriu que fui abusada e contou à minha mãe, mas no final das contas, não deu em nada.

E foi a partir de então que passei a ser indesejada ou invisível na maioria das ocasiões.

Nenhum comentário:

Postar um comentário