Com o passar do tempo fui me acostumando a não ser popular e nem agradável, por mais que me mostrasse simpática. Sempre achei que tivesse que fazer algum esforço pra ter, ao menos, um amigo. E assim fui crescendo e me matando por dentro - afinal, por que eu não era como as outras pessoas da minha idade?
Acho que fui aprendendo a me distanciar cada vez mais de tudo, inclusive de mim.
Cresci sob a sombra de outras pessoas, sendo sempre comparada e deixando de lado meu amor próprio, minha vontade de viver e de ser melhor de tudo o o que eu era. Parece que nunca fui suficiente, pra mim, pra ninguém, pra nada. Hoje vejo que nessa época já sofria de depressão, e me cortava constantemente. Ninguém nunca via, sempre tentei esconder o quão frágil e fraca eu era.
Com dezesseis anos me apaixonei perdidamente e verdadeiramente por alguém. Ele era bem mais velho, com quase o dobro da minha idade. Me deixei levar e me perdi num sonho, até minha mãe podar todos os meus galhos que haviam florido com esse relacionamento e infelizmente, não pude mais vê-lo.
Aos dezessete achava que tinha que fazer qualquer coisa para nutrir pequenos pseudo-relacionamentos pois, o que eu teria de interessante? Não poderia deixar que percebessem que eu não era ninguém. Dessa forma deixei que tivessem de mim qualquer coisa que queriam, e eles sempre queriam se divertir. Depois que percebi que a única coisa que interessava para os outros era exatamente isso, não ligar para nada, eu já não me importava com quem me quisesse. Fui pela primeira vez de fato pra "cama" com alguém e a partir de então não me impostava quem quisesse se deitar nela. Estava na maior parte do tempo bêbada e comecei a ter contato com as drogas, mas eu não poderia prever que ainda não tinha chegado no fundo do poço da falta de amor próprio.
Meu padrasto me levou a um show que eu queria muito ir. Me diverti como nunca, bebi como nunca, dancei como nunca. Ah, quem me dera se essa noite tivesse tido seu fim aí. Quem dera minha vida tivesse tido seu fim.
No fim da noite, já exausta, ele me levou para sua casa. Eu já estava tão fora de mim, que na maior parte do tempo cambaleava, desacordada. Talvez ele tenha colocado algo na minha bebida, talvez eu só tenha bebido demasiadamente, já não sei dizer. Acordei no outro dia trancada em seu quarto, com suas roupas vestindo meu corpo. Parei por um instante. Era difícil pensar com toda aquela dor em minha cabeça que ainda girava. Minha vida acabou ali, naquele quarto, quando dei por mim tudo o que havia acontecido.
Aquele homem que eu considerava como pai, o meu melhor amigo, meu confidente. Aquele que sempre esteve pronto para me ajudar. Nada disso fazia sentido depois da última noite. Esse que sempre agiu de forma exemplar teria feito algo comigo que mudaria o resto da minha vida. Foi nesta noite que ele me abriu uma ferida eterna, onde eu jamais poderia confiar novamente em alguém. Ele me estuprou.
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